No último domingo 24/01/2021 foi o dia de colocar o Nevasquinha na água. De antemão, pode parecer uma missão simples, descomplicada. Não foi o caso. A primeira tarefa foi colocar o barco em cima do carro, no rack, junto com o caiaque do Júlio que nos acompanharia no passeio. Aliás, a presença de uma terceira pessoa foi fundamental. 3,60 de comprimento, 1,40m de largura e 55 Kg são as medidas do Nevasquinha, um Holder 12 (12 pés). O nome oficial do barco – Nevasca – foi dado por alguém com muito esmero pela embarcação. Decidi manter o nome em respeito ao primeiro dono tão dedicado e zeloso. Claro, adicionei um toque de apelido e carinho e agora o chamo de Nevasquinha. As dimensões diminutas da embarcação facilitaram aplicar um diminutivo e me trazer a sensação de completude e, ao mesmo tempo, respeito ao nome de batismo do veleirinho. O carinho do tal primeiro dono é visível: além do nome impresso na embarcação, todas e absolutamente todas as peças do Nevasca são identificadas com seu nome: mastro, retranca, leme, bolina, carreta de encalhe, e até mesmo o saco onde guarda-se a vela é identificada com o tal nome.
Depois de muito esforço, conseguimos colocar o barco em cima do rack. Éramos três e todas as funções ali exercidas eram novidade, seja o transporte de uma embarcação sobre o carro com o auxílio das catracas recém adquiridas para essa função, seja a própria ideia de sair para velejar. O barco em si havia chegado na praia Brava da Fortaleza no dia anterior, à noite, e foi trazido pelo seu antigo dono capitão da cavalaria do exército de Mauá. Sua função e estatura parecem intimidadoras, mas sua generosidade e preocupação com a embarcação e segurança eram ainda maiores.

Carro carregado para descer o morro em direção à Praia da Fortaleza na Enseada da Fortaleza/SP. Esse mastro para fora da janela do passageiro nos custaria um leve acidente momentos depois da foto. (24/01/2021)
Descemos o morro em direção a praia. Se escrevesse en passant, a declividade e complexidade da operação de descida passariam desapercebidos. Novamente, não foi o caso. As duas peças do mastro articulado e a retranca foram colocados pela janela do passageiro. Erro crasso. A condução do veículo se tornava complicada e exigia bastante atenção, tendo em vista o caminho era tão estreito como o próprio Nevasquinha. Perto de chegar na praia, tivemos um acidente: o mastro enroscou num arame na beira da pista e acabou entortando. Por sorte era a parte superior do mastro articulado, que agora tinha uma inclinação de aproximadamente 8 graus. Apesar do acidente, minha animação continuava alta. Chegamos até a praia da Fortaleza-SP e tiramos o caiaque primeiro e depois o Nevasquinha com todo o cuidado que três pessoas conseguiriam. Além do casco, as diversas peças e cabos complexificavam a operação. Era 9h e o sol já estava escaldante. Nessa altura eu já estava pingando de suor.
Após a operação de estacionar o carro e levar o barco até a praia se passaram pelo menos meia hora. Como era um final de semana de feriado (25 de janeiro de 2021), a praia estava bastante cheia e resolvemos deslocar o barco um pouco para o sul para fugir dos banhistas e sair para velejar com mais segurança.
Apesar de dimensões diminutas, a embarcação era bastante pesada e não levamos a carreta de encalhe. Segundo erro. Isso nos custou carregar o barco na mão até o ponto mais ao sul. Nesse momento, tivemos a aparição do primeiro anjo da guarda – Patrícia, que se ofereceu para nos ajudar com bastante entusiasmo. Ela mesma tinha velejado quando criança e sua ajuda despretensiosa foi um primeiro sinal de que estávamos no caminho certo. Não pela ajuda em si, mas pelo fato de nos depararmos com uma pessoa tão encantadora e generosa, que nos ajudou genuinamente sem esperar nada em troca.
Na sequência, iniciamos a montagem do veleirinho, cujas instruções eu havia prestado muita atenção na noite anterior quando o senhor capitão da cavalaria de Mauá me havia ensinado: mastreação e vela com o cuidado do alinhamento, encaixe do mastro no veleiro, retranca, amarração da vela na retranca, burro (que eu havia colocado errado, mas fui corrigido pela tripulação), cabo da esteira, cri-cri, cabo da escota, cabo da testa de vela e o cuidado para prender o mastro, pois caso o valeiro tombasse, eu não perderia o mastro se estivesse fixo ao casco; bolina, leme, cupilha. O barco parecia estar pronto. Leve engano.

Nevasquinha montado ao chegar de São Paulo trazido pelo capitão da cavalaria de Mauá (23/01/2021)
Apesar dos detalhados passos descritos anteriormente, cometi um erro que me custou uma primeira saída ao mar bastante conturbada. Esqueci de amarrar a ponta do cabo da escota e ela acabou escapando do mosquetão central na hora de colocar o barco na água. Consequentemente, perdi o controle da retranca e a embarcação ficou levemente desgovernada. Fiquei bastante nervoso e, pela primeira vez, senti o pesa da responsabilidade do capitão para com a embarcação e tripulantes, que, no caso, era a querida Marília. Decidi dar um passo atrás e voltar para a costa para me recompor, reorganizar o barco, retirar a água que havia entrado e tentar mais uma vez.
Nesse momento de ápice de stress, surge o segundo anjo da guarda do dia. Jessé era um senhor de seus 55 anos e havia velejado diversas vezes com um Holder 12 anos atrás. Ele havia se aproximado para ver a embarcação e conversar um pouco. Eu logo comentei que estava tendo dificuldades e perguntei ao Jessé se ele poderia nos dar uma mãozinha. Ele abriu um sorriso e se dispôs a ajudar. Sua calma, gentileza e experiência em assuntos náuticos eram evidentes. Primeiro, nos orientou a retirar a água que havia entrado no veleiro. Inclusive, conseguiu uma garrafa d’água para nos auxiliar nessa função. Depois que o veleiro estava pronto para ir à água, Jessé nos ajudou a colocá-lo no mar e falou para mim e Marília entrarmos no veleiro que ele daria o empurrão inicial. E assim o fez. Apesar de toda a ajuda, a segunda saída também foi complicada. Demos um jibe chinês e o veleirinho avançou na direção dos banhistas. Por um momento, achei que não conseguiria sair ao mar, mas recuperei o controle da embarcação e finalmente conseguimos controlar o Nevasquinha. Nesse momento, ouvimos ao fundo alguns banhistas: “olha o Nevasca”, “agora vai”. Foi a confirmação de que estávamos velejando. E assim iniciou nosso primeiro dia de velejada a bordo do novo membro da família, o Nevasquinha.