Meu Primeiro Dia Como Capitão – Parte II

Agora oficialmente velejando na Enseada da Fortaleza em Ubatuba e passado todo o stress envolvido em preparar o veleiro, era o momento de, pela primeira vez, colocar todos os conteúdos que eu tinha estudado em prática. Foram 25 vídeo-aulas do Marcelo Bonilla Velejador com diversos conteúdos absolutamente úteis sobre termos náuticos, ventos, velas, manobras básicas, dicas diversas, ancoragem (fundeio), nós, trimagem das velas. Além disso, tinha devorado a apostila da Marinha de preparação para tirar a Arrais Amador, onde aprendi sobre meteorologia, legislação náutica, primeiros socorros, sobrevivência no mar, balizamento, etc. Enfim, as bases teóricas pareciam sólidas.

Quanto às experiências práticas, até aquele momento tinha velejado duas ou três vezes como tripulante em dois veleiros diferentes de um grande amigo no Lago Paranoá em Brasília. A primeira vez que velejei foi num veleiro da categoria Star, a GaliNau (ou Marie Thérèse) e cuja experiencia do meu amigo capitão até aquele momento era 100% baseada em livros e YouTube, assim como a minha. [Em breve um post sobre esse dia]. Esse amigo, inclusive, foi o grande embaixador da ideia de velejar e fazer travessias. A segunda experiência também foi em Brasília num veleiro um pouco maior, um Pomar de 19 pés chamado Kallyope. Ambas as velejadas como tripulante foram muito importantes para construir minha confiança e despertar o interesse inicial em mergulhar no mundo da vela.

Passado o início atribulado da velejada, era hora de assumir de fato o papel de capitão. A primeira tarefa era a leitura da direção do vento para poder posicionar corretamente a vela. Caso velejássemos contra o vento (orça) (na verdade formando um ângulo de 45º entre a proa e a direção do vento), a escota da vela mestra deveria estar caçada (tensionada), ou seja, a vela estaria mais fechada. Caso velejássemos a favor do vento, deveria soltar aos poucos a escota da vela mestra, atingindo a posição mais aberta da vela (asa de pombo) quando navegando em vento em popa. Na teoria é bem simples, mas na prática, a leitura inicial da direção do vento se mostrou mais difícil do que nas vídeo-aulas.

Direção do vento e diferentes posições da vela

O rumo desejado era a praia do Lázaro, que ficava do outro lado da enseada. Nesse trajeto, que demorou cerca de 2 horas, fui fazendo experimentos: caçando e soltando a escota da vela mestra, virando o leme, dando bordo e fazendo as manobras básicas para treinar e me familiarizar com o Nevasca. O primeiro choque foi com relação ao peso do barco. Como o veleiro é bem pequeno (12 pés), qualquer movimento brusco da tripulação tinha forte influência no equilíbrio da embarcação e era necessário fazer alguma correção, seja no leme ou na posição da vela. Outra diferença considerável com relação a velejar em lago ou represa são as ondas. No começo até me assustei um pouco porque o mar estava revolto, mas o barquinho teve um ótimo desempenho e venceu facilmente as ondas que se formavam.

Marília e eu a bordo do Nevasca

Já perto da praia do Lázaro, o Júlio seguiu de caiaque até a praia para comprar algumas garrafas de água porque havíamos esquecido de levar e nesse ponto do passeio já estávamos sedentos. Como a praia estava cheia, decidi esperar na água. Um ponto importante é que a única maneira de deixar esse tipo barco “parado” na água é alinhando a proa contra o vento para deixar o barco na zona morta. Não é possível ancorar porque a vela fica presa no mastro, impossibilitando baixá-la. Por esses motivos, o Holder 12 é um barco bastante técnico e um ótimo candidato para aprimorar as habilidades de navegação. Esse, inclusive, foi um dos fatores pelos quais escolhi um Holder 12 para começar a me aprofundar no mundo da vela.

O caminho de volta até a praia da Fortaleza foi um pouco mais tranquilo, exceto quando tivemos que dar alguns bordos até passar pela região das pedras próxima à praia Brava da Fortaleza – lugar onde o mar também é mais tempestuoso. No mais, consegui até dar uns mergulhos no mar, enquanto a Marília assumia o leme.

Enseada da Fortaleza com estimativa do trajeto percorrido – 4.5 milhas náuticas (8.3 km)

Na chegada, adrenalina novamente. Era necessário fazer uma nova manobra, que eu ainda não estava familiarizado. Respirei fundo. O primeiro passo era identificar a região permitida para atracar, onde não teria (ou pelo menos não deveria ter) banhistas. O caiaque foi na frente para sondar a região segura e para nos ajudar com a chegada. Região identificada. Demos nosso último bordo e nos aproximamos da costa à boreste. Soltei um pouco mais a escota da mestra para reduzir a velocidade. Marília já posicionada para recolher a bolina retrátil. Júlio na água nos esperando para segurar o barquinho. Fomos chegando com bastante calma, prudência e segurança. Leme e bolina recolhidos, pulei na água e finalmente terra firme.

Ufa! Chegamos! Dia longo, agitado e cheio de aventura. A melhor sensação de todas é chegar bem e com segurança. Um último mergulho no mar para comemorar o ótimo dia que tivemos e o meu primeiro dia como capitão do Nevasca.

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